07 julho 2011

Na medida certa

Nenhuma polegada a mais ou a menos é problema hoje para as candidatas a miss Brasil; afinal, elas se submetem até a intervenções não recomendáveis por boa parte dos cirurgiões plásticos. e isso é só o começo...

Texto: Eliana Fonseca | Fotos: Nélio Rodrigues



A preparadora de Misses Nádia Micherif cercada por suas pupilas. A coroa é objetivo de todas elas
As duas polegadas a mais que fizeram a baiana Marta Rocha perder, em 1954, o título de Miss Universo não fariam a menor diferença às misses atuais. As imperfeições não são mais o problema. Corrigir a postura nas passarelas, o modo de falar, portar-se e vestir, dar entrevistas, e até mudanças radicais na arcada dentária, alongamentos nos cabelos e, por que não, a correção e modificação no rosto e corpo com bioplastia, cirurgia plástica e tratamentos estéticos são muito mais recorrentes do que se possa imaginar. No próximo dia 23 de julho, um dos mais tradicionais concursos de beleza do país, o Miss Brasil, trará 27 candidatas representando seus estados e brigando pelo título. Ninguém imagina é que, nos bastidores, elas se olham no espelho procurando elevar a autoestima ora seguindo seus próprios instintos na modificação do que consideram um problema, ora ouvindo a voz de consultores no que mudar. Tudo para tornar sua candidatura mais competitiva. Mas, afinal, como nasce uma miss, o que pensam e o quanto estão dispostas a se modificar na busca do título de mais bela? E como nada dura para sempre, ser a mais bela vem com data de validade carimbada na faixa – exatos 12 meses com o título.
Há dois anos, a hoje modelo Aninha Reis, 24, pesava 75 quilos e resolveu emagrecer. À medida que ia perdendo peso, começou a ouvir dos amigos e mais próximos que devia procurar uma agência de modelos. Para descrédito da própria Aninha, a miss nasceu em uma dessas visitas em que a procura era por um trabalho como modelo e o que ocorreu foi sua indicação para um concurso de mais bela. Concorreu com 30 candidatas e foi selecionada para Miss Grande BH 2009. “Quando ganhei, a primeira coisa que fiz foi ligar para minha mãe e falar que não havia marmelada no concurso. A partir daquele dia, focalizei e pensei: agora vou ter que fazer tudo o que eles falarem”, conta.

"Até os 10 anos não furei a orelha porque havia uma norma que miss não podia ter a orelha furada, assim como tatuagem e piercing”, Wiviane Oliveira, M
Por eles, diga-se a coordenação do concurso Miss Minas Gerais, que, segundo Aninha, logo após sua seleção já indicou duas intervenções cirúrgicas para ajustar medidas às formas de uma miss: a colocação de próteses de silicone e uma lipoaspiração. O silicone não foi aceito pela moça, mas a plástica na barriga foi feita dois meses antes do Miss Minas Gerais 2009. “Tirei quatro litros de gordura”, relembra. Aninha conta que no início achava tudo lindo e maravilhoso. Depois, viu o peso de ser miss quando se tornou o centro das atenções em todos os lugares e até mesmo nas apresentações. “As pessoas me apresentavam como miss, mas eu preferia ser somente a Aninha Reis”, conta.
Com a atual Miss Minas Gerais 2011, a modelo, jornalista e estudante de direito Izabela Drumond, 24, ocorreu o contrário. Ela queria colocar prótese de silicone nos seios. Aluna da consultora de misses Nádia Micherif, Isabela a questionou sobre o que seria melhor. “Minha resposta era que estava ótimo como estava. Não precisava mudar”, diz Nádia. Com 1,74 cm de altura, 54 kg e 92 cm de quadril, Isabella conta que não fez qualquer intervenção cirúrgica, mas malha e faz tratamentos estéticos. Ela sempre ouviu dos amigos que nasceu miss, mas, quando decidiu concorrer, encontrou um novo mundo. O mais interessante é que apesar da beleza ser a mola do concurso, Isabela afirma que a candidata tem de ter conteúdo. “Se não houver preparação, a beleza externa não resplandece”, diz.
Postura: a ex-miss Ubá Nádia Micherif faz preparação em sua casa
Postura: a ex-miss Ubá Nádia Micherif faz preparação em sua casa
Não se chega ao ponto de desejar a paz mundial, mas o discurso das misses foca sempre na perfeição estética e moral que têm de passar para o outro. A Miss Amapá, Josiene Modesto chega a falar em dom divino. Nádia diz que a primeira lição é o ensinamento de ser cortês, com a utilização à exaustão do com licença, por favor e obrigada, independentemente de qual cargo o interlocutor da conversa ocupar. Até aí nada demais, porque serve para qualquer pessoa. Mas, como a miss produz encantamento no outro, essa cortesia, assim como a beleza, passam a ser obrigações. Se cansa? “Uma candidata a miss tem que ser disciplinada e gostar. Senão, pode não aguentar. Ela tem de passar por cima e aceitar muita coisa”, profetiza a consultora.
Ex-Miss Ubá, Nádia Micherif respira esse ambiente o tempo todo. É mãe da ex-Miss Brasil Nayla Micherif, que detém a atual franquia do Miss Brasil, e viaja por todo o país num trabalho que vai desde a preparação visual até a psicológica das candidatas ao título. Não fala em valores da preparação de uma miss, mas diante da pergunta afirma que pode custar até 50 mil reais para ajustar o valor, em uma fala mais tarde, em 20 mil.
Ana Reis, miss Grande BH em 2009, que se submeteu à lipo
Ana Reis, miss Grande BH em 2009, que se submeteu à lipo
No dia da entrevista à Viver Brasil, Nádia pede sigilo no nome da moça, mas mostra fotos de uma miss que estará concorrendo ao título de mais bela do Brasil no próximo dia 23 de julho, que fez bioplastia no rosto e ficou irreconhecível. A maçã do rosto proeminente e a mandíbula bem demarcada, formando um rosto quadrangular e angulado, fazem com que quase não se acredite nas fotos do antes e depois.
Nádia conta mais de um caso em que uma bioplastia mudou a vida de outras pessoas. Fala em outra miss que mal conversava e que depois da técnica utilizada no rosto, mal se reconheceu no espelho. “Ela me falou que achava que fosse outra pessoa e mudou até mesmo a maneira de falar. A bioplastia fez muito bem ao seu ego”, conta. Porém, a utilização da substância polimetilmetacrilato da bioplastia não é indicada porque pode ter data certa para trazer um grande problema não só às misses, mas a qualquer um cujo tratamento não for indicado.
O presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica Regional Minas Gerais, o médico Eduardo Nigri, só recomenda o uso da substância para pacientes com HIV positivo por causa da lipodistrofia causada pelos tratamentos antirretrovirais. “Não recomendamos o uso do polimetilmetacrilato em pacientes normais porque pode haver uma reação inflamatória do organismo e o resultado são úlceras, feridas no lugar onde a técnica foi utilizada e que podem trazer sequelas enormes às pessoas. É uma bomba-relógio e o pior, com prazo de até cinco anos sem nenhuma reação”, diz o médico.
Nádia Micherif é completamente a favor não só da bioplastia, mas de qualquer intervenção e tratamento que possam tornar as candidatas mais bonitas. As misses que estão sob sua supervisão veem a Belo Horizonte para tratar com os profissionais indicados por ela. “O que é natural?”, devolve ao ser questionada se existem misses com beleza 100%, sem retoques. Ela enumera que se alguém tem celulite ou estria e cuida, já não é totalmente natural e lembra que há concursos no mundo, como o da Venezuela, onde as candidatas chegam a tirar costela para afinar a cintura. “A tecnologia não pode deixar de ser usada”, justifica.
É por indicação de Nádia que misses fazem tratamentos dermatológicos, estéticos, podem passar por cirurgia plástica ou bioplastia, fazem clareamento ou modificam os dentes. “Elas me contratam para falar o que não está bom. Falo que está feio, mas também mostro a solução”, diz. Apesar de não ser o objetivo, até mesmo a preparação das misses para a derrota é feita pela consultora. Ela trabalha com indicações e tem um verdadeiro exército de profissionais como cirurgiões plásticos, médicos, psicólogos, dermatologistas, esteticistas, dentistas, maquiadores, cabeleireiros.
Nádia não fala o nome de nenhum desses profissionais alegando sigilo, mas a reportagem falou com um deles. O médico, que preferiu não se identificar, já recebeu inúmeras misses em sua clínica. Segundo ele, para atender aos requisitos do concurso Miss Universo, são inúmeros os tratamentos que deixam algumas candidatas extremamente magras, tudo para chegar às medidas perfeitas de uma miss, que seriam 90 cm de busto, 60 cm de cintura e 90 cm de quadril. “Em algumas, o índice de massa corporal está em 17”, diz. O IMC menor que 18,5 indica que a pessoa está abaixo do peso ideal.
Quatro misses que representam seus estados e estão no páreo deste ano estavam com Nádia no dia da entrevista: Izabela, de Minas Gerais, Wiviane Oliveira, de Goiás; Josiene Modesto, do Amapá; e Marcela Granato, do Espírito Santo. Elas afirmam não terem feito nenhuma intervenção de bioplastia. Josiane e Marcela colocaram silicone nos seios. Talvez falte pouco para a Miss Goiás 2011, Wiviane Oliveira, 24, com 1,75 cm de altura, também sucumbir. Ela abre um pouco mais seus olhos azuis para falar sobre o desejo de colocar próteses de silicone nos seios. No dia da entrevista, esperava ansiosamente um momento para obter a opinião da consultora se deveria fazer, ou não, a intervenção cirúrgica. Modelo desde os 13 anos, ela morou em vários países e realiza, como Miss Goiás, o sonho do pai. “Meu primeiro sonho era ser paquita, mas meu pai sempre quis que fosse miss. Até os 10 anos de idade não havia furado a orelha porque havia uma norma que miss não podia ter a orelha furada, assim como tatuagem e piercing”, diz.
"Acreditamos que pequenas intervenções possam contribuir para ressaltar a beleza de uma miss, não para modificá-la", José Alonso Dias
Considerado um dos maiores missólogos do país e coordenador do Miss Terra, o empresário José Alonso Dias, pondera que o limite de qualquer intervenção cirúrgica ou estética deve ser o bom senso e a naturalidade. “Acreditamos que pequenas intervenções possam contribuir para ressaltar a beleza de uma miss, não para modificá-la”, diz.
Para Dias, a beleza ainda é um dos parâmetros, mas alguns concursos têm se embasado em causas relevantes, citando o Miss Terra voltado para a causa ecológica e preservação do meio ambiente. “As exigências vão além da estética e o preparo sociocultural e intelectual ganham peso competitivo entre as candidatas”, analisa o missólogo.
Tal como a personagem Eliza Doolitle, da peça Pigmaleão, de Bernard Shaw, que passa de vendedora de flores à dama da sociedade, as misses têm aulas de praticamente tudo o que diz respeito à etiqueta e como se portar. Comer, falar, não falar, sentar com as pernas cruzadas, desfilar, ter postura, posar para fotografia e até mesmo não ter medo de errar. Sim, elas são incentivadas a perguntar sobre tudo que desconhecem, para não correr o risco de passarem por situações constrangedoras. “Em um jantar japonês oferecido às candidatas, uma delas colocou muita raiz forte no prato. Vi aquilo e achei estranho. Até comentei como ela gostava do tempero. Na hora que ela foi comer, foi um desespero. Tudo porque ela ficou com vergonha de perguntar o que era, não sabia”, conta a Miss Minas Gerais, Izabela, sobre um episódio recente.
A Miss Amapá, Josiene, fala em felicidade perfeita e extrema beleza para expressar o significado de ser uma miss. Para ela, o título tem a ver com classe, o resgate da dignidade, honestidade e de valores pouco relevantes para a sociedade. Formada em pedagogia e atual aluna no curso de direito, Josiene acredita que o título é a chance de se aprimorar mais. “Por isso é tão importante ter uma especialista nos acompanhando.”
A Miss Espírito Santo, que por acaso é mineira, diz que sempre participou de concursos. Atualmente, detém também o título de Miss Brasil USA. Justifica o gosto por concursos de misses pelo glamour. “A cada concurso, vamos nos aperfeiçoando, perdendo o medo e criando segurança”, diz.
Nádia diz que não diferencia ensinamentos. Universaliza tudo para todas as misses. Talvez a maior lição, que não tem a ver com mudança estética e nem conteúdo de etiqueta, é que, no dia da final do concurso, aquele é o momento de cada uma delas. “Essa preparação é para que cada uma faça o seu melhor. Cada uma tem de estar 100% naquele momento, porque não existe coisa pior do que pensar naquilo que poderia ter sido feito e não aconteceu”, diz Nádia. Mesmo que, após todas as intervenções ela não se reconheça no espelho.

http://www.revistaviverbrasil.com.br/73/materias/01/capa/na-medida-certa/

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